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MEIO AMBIENTE - DE FLOR EM FLOR

Os polinizadores são essenciais na formação dos frutos e precisam de habitat para permanecer na propriedade agrícola, que deve ter paisagem diversificada para sua procriação e manutenção.

Marlene Simarelli

Numa fração de segundos, eles tocam as flores, uma a uma, e deixam no caminho uma nova fruta. Podem ser beija-flores e outras pequenas aves, abelhas, mamangavas, morcegos, besouros, mariposas e outros insetos. Eles são polinizadores, cuja presença é essencial para a reprodução das fruteiras, de maneira geral, que não se beneficiam da ação do vento, como o arroz, o trigo e o milho. Mas a falta de habitat na propriedade agrícola os expulsa para outras áreas e reduz a produção. “A polinização é essencial para as plantas produzirem frutos e tem uma importância econômica enorme. Boa parte da produção agrícola depende de polinização por animais”, explica o biólogo Bráulio Ferreira de Souza Dias, do Ministério do Meio Ambiente(MMA).

O processo de fecundação das plantas ocorre de duas maneiras distintas. A primeira, através das plantas denominadas autocompatíveis, feita a partir do pólen da mesma planta. A outra, com maior ocorrência, depende do pólen vindo de outras plantas, cujo transporte é feito por animais.

Bráulio Dias observa que não há uma receita única para todas as fruteiras e não existe um polinizador universal. “A abelha Europa, a apismelifera, é a que mais se aproxima dele, mas mesmo assim não atua em todas as plantas”. Ele exemplifica: “o maracujá, com suas flores grandes, somente as abelhas mamangavas conseguem polinizar. A Europa apenas visita a flor do maracujá é uma espécie de ladrão de pólen, mas não poliniza a flor. A presença de abelhas Europa na maracujá é negativa. Já, a flor do caju oferece pouca atração para o polonizador – o mais interessante para esta fruteira são algumas abelhas solitárias, que precisam também de uma fonte de óleo para abastecer seu ninho. Se houver somente a plantação de caju, não haverá polinização, portanto o cajueiro precisa de uma consorciação, por exemplo, com a acerola. Ambas, são exemplos da situação complexa da polinização”. Segundo Dias, falta ainda muita informação para o produtor em relação aos insetos importantes para a polinização das culturas. “A família das anonáceas (graviola, araticum, atemóia, pinha, fruta do conde) precisa da presença de besouros. O agricultor desavisado vê besouros na planta, pensa que é praga e aplica inseticida, matando-os, por falta de informação”.

O déficit da polinização pode acarretar frutos pequenos, frutos defeituosos ou, até mesmo, causar ausência total de frutos. Estudos mostram também que a baixa fecundação pode afetar a qualidade e o sabor. Dias relata que “freqüentemente agricultores detectam problemas de produção de frutos e imaginam que as causas estão relacionadas á falta de água, de fertilização etc, mas raramente se perguntam se não é falta de polinização, quando o morango não é polinizado fica com a ponta do fruto dura, por exemplo”.

Na falta de polinizadores, o serviço de extensão agrícola recomenda a polinização manual, principalmente, em regiões desmatadas. Segundo o biólogo, este processo “funciona, mas é caro. Com elevação de custos de mão-de-obra no Brasil, cada vez vai ficar mais caro”. Ele avalia que, além da produção, a oferta de polinizadores em abundância é importante, pois reduz custos de mão-de-obra.

MANGA E MARACUJÁ

O estudo sobre o tema no Brasil começou há 50 anos com a cultura do café, sendo retomado nos anos 70, em Santa Catarina, com pesquisas em maçãs e nos anos 80, com o melão, no Nordeste.

O grande avanço aconteceu a partir dos anos 70, com a criação dos cursos de pós-graduação sobre polinizadores nos institutos de Biologia. Recentemente, as escolas de Agronomia introduziram o tema, mas ainda de maneira tímida. Há dois anos, o Ministério do Meio Ambiente, por meio do Probio, investiu em projetos pilotos sobre o comportamento de polinizadores, em parceria com universidades e órgãos de pesquisa em diferentes regiões e culturas, entre elas cupuaçi, açaí, murici, mangaba, acerola, manga, maracujá, goiaba, umbu, articum, tomate em estufas e em campo.

O aumento do número de polinizadores reflete na produção das mangueiras, assim como na do maracujá. Essas são as conclusões do projeto com ambas as fruteiras, coordenado pela pesquisadora Lúcia Kiill, da Embrapa Semi-Árido, parte da iniciativa de Polinizadores do Probio que contou com a participação de colaboradores, como a Universidade do Estado da Bahia (Uneb). O projeto analisou os polinizadores presentes em mangueiras Tommy Atkins e Haden e em três espécies de maracujá (amarelo, doce e o maracujá-do-mato, nativo da caatinga). Desenvolvida no pólo frutícola Petrolina (PE)/Juazeiro(BA), a pesquisa foi conduzida, no caso da mangueira, em três fazendas empresariais (de 50 a 120 hectares), voltadas para a exportação da fruta in natura. Destes, cinco hectares eram de mangas em cultivo orgânico. Para o maracujá, os estudos ocorreram em áreas de agricultores familiares (6 a 19 hectares) dos projetos de Irrigação Senador Nilo Coelho e Maniçoba, com produção destinada ao mercado local, e em áreas experimentais da Embrapa Semi-Árido.

Para o maracujá, a produção de frutos em condições naturais indicou que há limitação de seus polinizadores, as mamangavas. Lúcia Kiill afirma que “houve necessidade de se incrementar o número de visitantes e a freqüência de visita para o sucesso da cultura sem a utilização de técnicas manuais de polinização”. Já no cultivo de mangas, a pesquisadora destaca: “abelhas melíleras tiveram um comportamento ativo nas estações seca e chuvosa, mas as moscas estiveram presentes apenas em uma delas”. Ela acrescenta que “as plantas invasoras de cultivo servem como recurso alimentar alternativo para os polinizadores, favorecendo a permanência deles. Porém a aplicação de agroquímicos interferiu no comportamento reduzido a diversidade e freqüência de visitas”.

PESQUISA COM CUPUAÇU

A cultura do cupuaçu é de grande importância para a região Amazônica e está presente em praticamente todos os sistemas agroflorestais, bem como o açai. O projeto para estudos com a planta foi implementado na região de Manaus e seu entorno, em pomares de pequenos agricultores e em uma área experimental do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). De acordo com o coordenador do projeto e pesquisador do Inpa, Rogério Gribel, apesar de ser nativo, o cupuaçu não ocorre espontaneamente na região Amazônia Central. “Os experimentos mostraram que árvores saudáveis, em boas condições nutricionais, produziam número de frutos abaixo do potencial. Atribuímos este comportamento à deficiência de polinização, pois quando polinizadas manualmente, estás árvores aumentam muito sua produção”, explica. O cupuaçu é polinizado por pequenas abelhas nativas, sem ferrão. “Sem elas, a produção da cultura é zero, pois nesta planta há necessidade de polinização cruzada (ou seja, o pólen deve ser levado da flor de uma árvore para a flor de outra) para formação de frutos. Polinização entre flores da mesma árvore não resulta em fecundação e não há produção”, ressalta Gribel. A pesquisa mostrou que as pequenas abelhas, normalmente, são desprezadas pelo agricultor, pois ele ainda não está informado sobre a importância delas e não as relaciona com a fecundação das flores e à formação de frutos do cupuaçu e de outras fruteiras tropicais. “Estas pequenas abelhas, que ocorrem mesmo em áreas de vegetação secundária e onde já houve interferência do homem, são agentes de grande importância econômica”, observa. Para o pesquisador, os produtores estão mais cientes da polinização feita por abelhas criadas em cativeiro, como a européia (Apis melífera) e as jandaíras (gênero Melípona), mas ambas não polinizam o cupuaçu. Gribel afirma ter encontrado algumas áreas com deficiência destes agentes fecundadores em função do uso de inseticidas em demasia, embora haja flora nativa relativamente preservada em torno das fazendas e dos pomares.

Segundo artigo assinado pelos pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, Giorgio C. Venturieri, Silvane T. Rodrigues e Charles ª B. Pereira, “o açaizeiro, por ser uma planta que oferta razoável quantidade de pólen e néctar e, por possuir seu pico de floração no período de menor oferta de recursos florais por outras espécies botânicas, constitui-se também como uma importante espécie apícola para a região Amazônica”. Para sanar a deficiência dos polinizadores da cultura do cupuaçu, instituições estão desenvolvendo tecnologia de manejo das colônias de abelhas nativas a exemplo do que já existe para as melíferas. O Inpa possui um meliponário com 50 colônias para cruzamento.

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) está desenvolvendo programa de longo prazo em parceria com a FAO (Food and Agriculture Organization), o Ministério da Agricultura, universidades e órgãos estaduais, para estabelecer uma rede de experimentação e polinização na agricultura com culturas de importância nacional e regional.

Segundo Bráulio Dias, “estudos mostram que o produtor pode ter ganhos de 20% a 50% de produtividade com oferta adequada de polinizadores na laranja, maçã, uva e melão. Para conhecer os projetos pilotos, visite o site www.mma.gov.br/probio e acesse subprojetos apoiados.

Para não limitar os polinizadores

Eles precisam ter condições favoráveis de se manter no ambiente a fim de visitar as fruteiras e demandam, também, um local para seus ninhos. Muitas abelhas nativas brasileiras fazem ninho em árvores ocas. Há abelhas que precisam de areia, de barranco; outras que fazem ninhos nas raízes de plantas epífitas (aquelas que se apóiam em outras para viver, como as orquídeas).

Já os besouros, na fase larval, vivem no solo se alimentando de raízes de gramíneas. Em culturas com épocas de floração bem definidas, como a maçã, é preciso manter fontes de alimentos para que sobrevivam e completem seu ciclo de vida ao longo do ano. O fruticultor pode tomar cuidados simples como:

  • Manter remanescentes de florestas, área de cerrado, de campo. Áreas gramadas, com solo exposto e plantas complementares ( como o exemplo do caju e da acerola)

  • Não atear fogo

  • Reduzir e até eliminar agrotóxicos, substituindo-os por controle biológico e outros manejos, pois polinizadores são muito sensíveis a eles. (Estudos comprovam que no cultivo orgânico há maior diversidade)

  • Ao usar agroquímicos, optar pelos menos tóxicos aos polinizadores, particularmente, abelhas nativas e melíferas.

  • Ter muita atenção para não coincidir horário de abertura das flores e visitação dos polinizadores com horário da aplicação.

  • Evitar aplicação no período da manhã, quando ocorre maior visitação. Aplicações devem ser feitas, de preferência, no final da tarde.

  • Manejar plantas invasoras da cultura para que sirvam de fonte alimentar e de abrigo aos inimigos naturais.

  • Suplementar a visitação dos polinizadores colocando colméias, no caso do plantio de mangas, ou substrato para a construção de ninhos, em maracujá.

  • Identificar os ninhos (que ocorrem em ambientes específicos como cupinzeiros, troncos de palmeiras, troncos ocos) e não destruí-los.

  • Facilitar a introdução de ninhos nos plantios para aumentar a taxa de polinização.


Dados: IBRAF – Instituto Brasileiro de Frutas

Revista Frutas e derivados

Ano 3 . Edição 10 . Junho de 2008.


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